quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DROGADO.


A mãe sempre fez tudo por ele e para ele, o pai também.

Na vida tudo sempre foi fácil. Muito fácil.

Desde bebe teve alguém ao lado, para atender suas necessidades.

Seus pais supriam todas suas vontades:- Melhores escolas, melhores roupas, melhores brinquedos, melhores babás, melhores motoristas.

Nunca ficou doente; se ficou as babás não informaram.

Se alguma vez brigou na escola, não souberam, aliás, nunca trocaram suas fraldas, nunca o ouviram chorar a noite, sempre teve algum serviçal que o fizesse.

Por isto não perceberam quando começou a beber, nem quando passou a fumar.

O dia que pela primeira vez mandaram o advogado da família buscá-lo na delegacia, por causa de brigas numa boate, acharam normal para a idade, coisa de adolescente.

O que não entendiam, eles que sempre foram ótimos pais e deram tudo a ele, carros, motos, barcos, dinheiro. Que fosse ser preso dentro de uma favela. Na certa influência de algum funcionário.

Que vergonha, seu filho no meio de pobres mal cheirosos. Poderia ter contraído uma doença infectocontagiosa qualquer. Por isso, depois de ter ficado vinte e quatro horas detido na delegacia, foi direto a um SPA por uma semana, para descontaminar.

Quando voltou para casa, passaram a receber reclamações constantes dos serviçais. Seu menino os estava tratando muito mal.

O que queriam? Será que esqueceram, ele era o patrão. Se não estivessem contentes, procurassem outro lugar para trabalhar.

Lembravam de tudo isso, enquanto aguardavam a liberação do corpo pelos advogados. Receberam a noticia em viagem, ela num estado do sul a trabalho, ele também em viagem, mas fora do país.

Overdose, a causa mortis.

Segundo o médico a muito era usuário. Nunca notaram.

No velório e no enterro os que mais choraram e rezaram, além do padre contratado para a missa, foram os serviçais, as babas, os motoristas, as faxineiras, cozinheiras, copeiras, todos que primeiro o viram andar, crescer e agora partir

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL EM FAMILIA.

Na ponta sentou meu pai; na outra minha mãe.

Ao lado de meu pai, meu irmão. Ao lado de minha mãe, eu.

Entre meu irmão e meu pai; meus tios e tias. Entre minha mãe e eu; meus primos e primas.

Mesa posta, carnes assadas, frangos, peru, leitão, cuscuz, risoto, ravióli, saladas, vinho, cerveja, refrigerantes e champanhe. Típica mesa de famiglia italiana.

 Mamãe levanta e serve papai. Titias servem titios.  Nós, de resto nos servimos. Alguém lembra que nos esquecemos da prece. Paramos de comer, beber e rezamos. De pronto voltamos a comer e beber.

Piadas, risos, estórias, histórias, beliscões nas pernas de minhas primas; uma olhada severa de minha mãe e uma advertência, pois, ela viu.

Terminada a ceia, trazem a sobremesa:- “Pudim de leite condensado”. Após, as mulheres tiram a mesa.

Os homens aprontam a mesa para o jogo de tômbolas. Onde passaram a noite. As crianças esperam afoitas a hora de dormir, assistindo a vida de Cristo pela TV.

Fomos dormir. Um sono intranqüilo a esperar Papai Noel.

Pela manhã corremos escada abaixo, ajoelhamos em frente à árvore e vasculhamos a procura de nossos presentes.

Quanta alegria por ganharmos, quanta tristeza por não ser aquilo que pedimos a Papai Noel. Só nós sabíamos o que era. Pegamos nossos brinquedos e saímos para a rua brincar, comparar e fazer inveja ou invejar os dos outros.
Ganhei um trenzinho elétrico, que logo descobri ser impossível na areia com ele brincar:- "Não tinha tomada lá fora". Meu irmão ganhou uma bicicleta, os demais carrinhos, bolas, bonecas. Todos podiam na areia brincar, menos eu.

Não tive duvidas. Troquei meu trenzinho, por um carrinho de plástico, bem inferior ao meu trem, mas muito mais divertido. Isto é o que me importava. Mas não o meu pai, que dizia ser um bem mais caro e valioso, o que não entendia, pois, fora Papai Noel quem me dera.

Ele nunca entendeu por que chorei quando de volta fui buscar o trem, nem por que meu amigo contente ficou com a troca.

Lembrar disto hoje, faz-me sorrir. Lembrar de meu pai, de minha mãe, meus irmãos, parentes e amigos. Lembrar que tive um bom lar. Ótima família, que éramos todos unidos, alegres e felizes.

Pode ser piegas, mas me faz muito bem.  Que tenham boas lembranças, vocês também.

E para sempre um ótimo natal.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

LIBERDADE !



Sorria. Sentado em um sofá, cabeça recostada, olhos fechados, recordava o tempo de quando seus filhos eram pequenos, e de como gostava de estar com eles.
Brincavam de tudo juntos, soltando pipas, jogando bola, bolinhas de gude, carrinhos de rolemãs, bater latas, queimada, futebol, pique - esconde, e muito mais.
Finais de semana iam sempre para algum lugar passear, conheciam todos os Parques e Museus de São Paulo.
Permitiu que tivessem todos os amigos possíveis, assim como animais de estimação.
Quando afinal casaram e deram-lhe netos, desde a concepção tratou de aproximar-se deles. Quando nasceram ajudou em tudo, de fraldas a banho.
Acompanhou o crescimento, fez questão de levar e buscar nas escolas, de vê-los em jogos e torcer por eles. Vibrar nas vitórias, consolar e levantar o moral nas derrotas, mas fosse o que fosse estar sempre ao lado.
Não lembrava quando, nem como, mas num certo momento seus filhos passaram a contestar suas palavras:- "Todas elas! ". Depois a não levá-las em consideração.
Logo, suas espôsas e maridos decidiram que era um estôrvo, que só dava trabalho e preocupação. Suas opiniões e seus desejos passaram a não ter mais nenhum valor.
Esqueceram de todos os passeios, de todas as risadas, de toda a felicidade.
O passado, no presente servia apenas para ser esquecido.
Mas, o que doeu mesmo não foi o internato no asilo, nem os netos que não viu mais.
O que lhe doía mais era lembrar-se das flores e das árvores, dos pássaros e das borboletas, dos cachorros e das pessoas, que encontrava todos os dias pelas ruas onde caminhava.

Ivan de Souza machado