sexta-feira, 24 de junho de 2011

O LIXEIRO.


A impressão era de que o cheiro tinha se incorporado nele, como se fosse parte do lixo.
As pessoas o evitavam. Quando em serviço, pedia um copo d’água, quem o atendia procurava de todas as maneiras um copo descartável ou algo que não fizesse falta ou simplesmente dizia não ter.
No ônibus, percebia alguns torcendo o nariz ou tapando, quando estavam próximos a ele. Não sabia se era sua imaginação, mas sentia-se excluído, à margem da sociedade, a mesma que com seu trabalho, lutava para manter limpa.
Gostava do que fazia. Acostumou-se a fazê-lo. Acreditava que se não fosse por ele, ratos, baratas, moscas e toda sorte de doenças proliferaria, causando sabe-se lá quanta desgraça.
Quem em sã consciência, nesta sociedade consumista, que produz toneladas de lixo por segundo, consegue imaginar a não existência, do trabalho, dos coletores de lixo.
Como seria possível a vida sem eles?
Esta percepção, da importância do seu trabalho para a sociedade, é que faz com que levante todos os dias para trabalhar, sem se importar com os narizes tapados, os olhares desviados, os bons dias nãos dados ou os copos d’água recusados.
Precisam dele, na verdade não vivem sem ele.

Ivan de S. Machado

domingo, 12 de junho de 2011

O SER MULHER.

Apanhar dos pais, dos irmãos, dos tios, dos avôs, dos namorados, dos noivos, dos maridos era comum, o maior talento era o de agüentar calada.
Espancada em casa, esmurrada nas ruas, nos ônibus, em qualquer lugar, ninguém ligava, era um direito dos maridos, do homem.
Podia trabalhar, desde que autorizada pessoalmente pelo marido, pelo homem, que ao final do mês recebia o salário.
Em teatros, cinemas, restaurantes, só acompanhadas por seus maridos, o homem, em determinados lugares, como bares, nem pensar.
Enquanto o marido, o homem, conversava se estivesse no mesmo ambiente permanecia calada. Para sair, devia pedir licença.
Nas ruas, era seu dever andar de cabeça baixa.
Mulheres estupradas? Imagine, eram demônios de saia, bruxas que enfeitiçavam os coitados levando-os a fazer o que não queriam.
Quando ousaram reivindicar direitos como operárias, preferiram queimar a fabrica, com elas dentro.
Podiam ser mortas por presunção de traição pelos maridos, o homem, que alegava ter a honra ofendida.
Foram avós, mães e filhas, mulheres, donas de casa, e hoje são Presidentes da Republica mas, parece que não perceberam, ainda.

Ivan de s. machado

domingo, 5 de junho de 2011

TEMPOS FELIZES!

                                                           ao Titi


O barulho das rodas do trem sobre o trilho, fez com que olhasse pelas janelas do vagão.
Lá fora se descortinavam paisagens belas, umas mais que outras.
Embevecido o olhar trouxe riso, a seu até então, carrancudo rosto.
O que via fê-lo recordar imagens de infância há muito, em um canto qualquer quarnecidas.
“A chuva caiu sem parar torrencialmente. O aguaceiro desceu forte.
No cruzamento de duas ruas, formava quase que uma piscina.
Era lá que estávamos eu e meu irmão, no meio da enxurrada.
Adorávamos a chuva.
É como se naquela época, a chuva fosse só um bem. O ribombar do trovão apenas um susto. Flashes dos relâmpagos eram holofotes a nos iluminar.
Ensopados, cobertos de lama da cabeça aos pés, fazíamos parte da natureza, incorporávamos nela e ela em nós.
Sentíamo-nos mais fortes, mais vivos.
Jamais ficamos doentes, e mamãe nunca soube."

ivan de s machado